Há algum tempo comecei a escrever um livro sobre a minha trajetória. Vai se chamar De Borba a Brasília e começa antes de mim: com meu pai, que saiu do Ceará para o Amazonas, e com meu avô materno, que veio do Líbano. Passa pela infância em Borba, pela juventude em Manaus, pelos anos em Belém e Porto Velho, pelos barcos, pelas reuniões e pelas estradas, até chegar aos dias de hoje.
Escrever sobre a própria vida é um exercício curioso. Algumas lembranças vêm inteiras, com cheiro e cor: a casa de madeira na barranca do Rio Madeira, o pôr do sol na ponta da ilha em frente à cidade, a luz elétrica que só funcionava das seis às nove da noite e deixava Borba entregue às histórias de assombração. Outras chegam aos pedaços e precisam ser montadas com a ajuda da família, de fotos antigas e de longas conversas.
É esse processo que quero dividir aqui. A seção Bastidores do livro vai trazer trechos que estou escrevendo, histórias que talvez não caibam nas páginas finais, fotos de época e um pouco do caminho de quem nunca escreveu um livro e resolveu encarar a tarefa depois dos 60.
Também é um convite. Muitos de vocês fizeram parte dessa travessia, seja na navegação, nos sindicatos, nas viagens ou na vida. Se uma história daqui despertar uma lembrança, uma correção ou uma foto guardada, escreva. Um livro de memórias fica mais verdadeiro quando outras memórias ajudam a contá-lo.
Ainda não sei quando ele estará pronto. Sei que cada capítulo tem me levado de volta a lugares que eu achava esquecidos. Venha comigo: a viagem começa em Borba, numa casa simples de frente para o rio.
R Holanda


