Passei a maior parte da vida correndo. Empresa, sindicato, federação, viagens, reuniões em Brasília, em outras regiões do país e até fora dele, mandatos um atrás do outro. Conquistei coisas de que me orgulho, e não tenho vergonha de dizer isso. Mas, depois dos 60, comecei a perceber uma conta que não fechava: a agenda estava sempre cheia, e a vida, às vezes, vazia do que realmente importa.
Não estou dizendo que conquistas não importam. Importam, e muito. Independência financeira dá liberdade de escolha, e quem ainda não tem precisa correr atrás. Realização profissional dá sentido ao trabalho e respeito ao que se faz. Título, cargo e mandato são reconhecimento de esforço. Quem diz que nada disso vale, quase sempre, está falando de barriga cheia.
O problema é quando isso vira a única medida. Mandato acaba, cargo passa para outro, título fica na parede. O que fica de verdade são as pessoas: os amigos que atendem o telefone a qualquer hora, a família que continua ali quando a agenda esvazia, as conversas sem pauta. E a saúde, que sustenta todo o resto e só costuma ser lembrada quando falta.
Por isso, hoje procuro fazer uma conta mais equilibrada. Continuo trabalhando, planejando, investindo e buscando resultado. Mas passei a guardar espaço para o almoço sem pressa, a visita que vivia sendo adiada, o tempo com quem importa. Isso não é luxo, é gestão: quem não cuida do que é importante acaba gastando o que conquistou tentando recuperar o que perdeu.
Se pudesse dar um conselho a quem está no meio da corrida, seria simples: conquiste, sim. Construa patrimônio, busque reconhecimento, cumpra seus mandatos. Mas não deixe para viver depois. O depois chega mais rápido do que a gente imagina, e é muito melhor chegar a ele acompanhado.
R Holanda


