Toda travessia começa numa margem. A minha foi Borba, cidade às margens do Rio Madeira, no estado do Amazonas. Quem chegava de barco avistava primeiro a barranca alta, depois as torres da igreja de Santo Antônio, hoje Basílica, e em volta dela um punhado de casas que pareciam ter sido colocadas ali só para ver o rio passar. Era assim que a cidade vivia: de frente para a água e de costas para a floresta.
Quando nasci, em 1957, Borba deveria ter uns mil habitantes. Havia umas três ruas de cimento e algumas de barro, que viravam lama na época das chuvas e poeira no verão. A primeira rua corria ao longo da barranca, com a praça, a igreja, o comércio e, lá no fim, o Grupo Escolar Monsenhor Coutinho, onde aprendi as primeiras letras. Todo mundo se conhecia pelo nome, e as notícias chegavam aos ouvidos de todos antes de qualquer barco atracar.
A nossa casa era a primeira da esquerda, na beira do barranco, quase vizinha da igreja. Era de madeira, com os quartos em cima e a sala e a cozinha embaixo. Quem a projetou foi meu pai, um homem muito bom de comércio que entendia quase nada de arquitetura, mas ela ficou de pé, e isso bastava. Ao lado funcionava o comércio dele, onde se vendia de tudo e se trocava mercadoria por produtos da região.
Da janela do meu quarto, o mundo inteiro passava pela água. Eram barcos chegando e partindo, gente subindo a escada da barranca com sacos e caixas nas costas, canoas cruzando para a ilha em frente. No fim da tarde, o sol descia exatamente na ponta dessa ilha, e o Madeira ficava cor de cobre. Eu ainda não sabia, mas aquele rio ia me acompanhar a vida toda, de Manaus a Belém, de Porto Velho a Brasília.
Morei em Borba até uns dez anos, quando a família se mudou para Manaus. Voltei poucas vezes, mas nunca saí de lá por completo. Até hoje, sempre que vejo um pôr do sol sobre um rio, em qualquer canto do país, é aquela janela que eu reencontro. É dali que partem as histórias desta seção.
R Holanda
Esta passagem faz parte de “De Borba a Brasília”, livro de memórias que estou escrevendo.
Legenda da foto:
Borba vista do Rio Madeira. No alto da barranca, a igreja de Santo Antônio. A nossa casa é a primeira à esquerda, na beira do barranco.


