
Quem caminha hoje pela beira do Rio Madeira, no centro de Porto Velho, passa por galpões antigos, trilhos que não levam a lugar nenhum e locomotivas paradas há décadas. Para muitos, é só um cenário bonito para fotografias no fim da tarde. Mas cada peça daquele pátio guarda uma das histórias mais impressionantes da Amazônia. É a história de um trem que nasceu porque o rio não deixava passar.
Tudo começa com as cachoeiras. Entre Porto Velho e Guajará-Mirim, os rios Madeira e Mamoré descem em uma longa sequência de quedas e corredeiras que nenhum barco carregado consegue vencer. No século XIX, isso tirava o sono da Bolívia. Sem saída para o mar, o país sonhava levar sua borracha pelo Amazonas até o Atlântico, mas as cachoeiras fechavam o caminho. A ideia que surgiu parecia simples: uma ferrovia contornaria o trecho impossível e devolveria a carga ao rio mais abaixo, onde a navegação seguia livre.
Simples no papel, mas não na floresta. Na década de 1870, o americano George Earl Church conseguiu a concessão e o dinheiro para a obra. As empresas que contratou desistiram ou faliram pouco depois, vencidas pelas doenças e pelo isolamento. O sonho ficou adormecido por quase trinta anos, até que a política o acordou. Em 1903, com o Tratado de Petrópolis, o Brasil ficou com o Acre e assumiu, entre os compromissos com a Bolívia, a missão de construir a ferrovia.
A obra recomeçou em 1907, sob o comando do empresário americano Percival Farquhar. Para abrir caminho na floresta, ele trouxe trabalhadores de toda parte. Ao longo dos anos, passaram pelo canteiro mais de vinte mil homens, de cerca de cinquenta países: caribenhos, espanhóis, portugueses, alemães, gregos e brasileiros de várias regiões. Era uma verdadeira torre de Babel no meio da selva, onde quase ninguém falava a língua do vizinho, mas todos enfrentavam o mesmo calor, a mesma umidade e os mesmos mosquitos.
E foram os mosquitos o pior inimigo. A maioria daqueles homens nunca tinha estado na Amazônia e não tinha nenhuma defesa contra as doenças da região. A malária derrubava turmas inteiras, ao lado da febre amarela e do beribéri, uma doença causada pela má alimentação. Chegavam navios com trabalhadores novos para substituir os que adoeciam, e o ciclo se repetia. Em 1910, a situação era tão grave que a empresa chamou o sanitarista Oswaldo Cruz para estudar o canteiro e propor medidas de prevenção. Até hoje ninguém sabe ao certo quantos morreram. Os registros da época são incompletos, muitos doentes foram mandados embora e morreram longe dali, e as estimativas variam de alguns milhares a dezenas de milhares, conforme a fonte. O povo resumiu a tragédia numa frase que atravessou o tempo: um morto para cada dormente. Foi assim que nasceu o apelido de ferrovia do diabo.
Em 1912, os 366 quilômetros de trilhos finalmente ficaram prontos. Só que, enquanto os homens abriam caminho na mata, do outro lado do mundo os ingleses já colhiam borracha em grandes plantações na Ásia, mais barata e em maior quantidade. O preço caiu justamente quando o trem começou a rodar. A ferrovia perdeu a razão principal de existir no mesmo ano em que ficou pronta. Mesmo assim, resistiu por décadas, teve seu papel na Segunda Guerra Mundial e só parou de vez em 1972, quando a estrada tomou o seu lugar.
Mas uma obra desse tamanho nunca passa sem deixar marcas. Do acampamento dos trabalhadores nasceu Porto Velho, hoje capital de Rondônia. Locomotivas, oficinas e galpões sobreviveram ao abandono, e a ferrovia foi tombada como patrimônio histórico nacional.
Em 2005, essa história chegou à sala de milhões de brasileiros. A TV Globo exibiu a minissérie Mad Maria, adaptada por Benedito Ruy Barbosa a partir do romance do escritor amazonense Márcio Souza. Tony Ramos viveu Percival Farquhar, ao lado de Antônio Fagundes, Ana Paula Arósio e Fábio Assunção. As gravações foram feitas em Rondônia, com uma locomotiva e um trecho dos trilhos restaurados especialmente para as câmeras. O nome junta duas coisas: "mad", que em inglês quer dizer louco, e as "Marias", como eram chamadas as velhas locomotivas a lenha. Para muita gente, foi a primeira vez que se ouviu falar da ferrovia.
Voltando ao pátio à beira do Madeira, as locomotivas continuam lá, paradas, olhando para o rio que um dia tentaram vencer. A borracha não esperou por elas, e o mundo mudou antes que a obra terminasse. Mas, ao redor daqueles trilhos silenciosos, cresceu uma cidade inteira. No fim, a ferrovia do diabo não levou a Bolívia ao mar, mas deixou Porto Velho no mapa.
R Holanda

